Alzheimer eleva risco de desnutrição em idosos, aponta estudo da USP

26% dos pacientes com a doença têm dificuldade para sentir sabores. Pesquisa de Ribeirão Preto fez testes com 130 pessoas, durante 1 ano.

Aos 80 anos a aposentada Lúcia Cunha Castro foi diagnosticada com Alzheimer e desde então recebe cuidados especiais para lidar com o avanço da doença. Com o tempo, a filha da idosa, Cacilda Castro, notou a progressão de sintomas, como falta de memória, dificuldade para andar e a redução da capacidade de se alimentar.

“Ela precisa de cuidados praticamente 24 horas, porque virou um bebê grande”, disse a empresária que abriu uma clínica para cuidar da mãe e ampliar os cuidados para outros idosos de Ribeirão Preto (SP). “Ela precisa de todos os cuidados, a alimentação tem que ser pastosa, ela não aceita mais salgado e só come quando está com fome, a gente percebe que ela perdeu o paladar”.

A observação feita pela família de Lúcia foi constatada também por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão. Segundo o estudo, 26% dos pacientes com Alzheimer têm dificuldade para sentir o sabor dos alimentos e essa perda de sensibilidade pode aumentar os riscos de desnutrição entre os idosos.

Sem sabor

Durante a pesquisa foram feitos testes em 130 pessoas com e sem Alzheimer e em diferentes estágios da doença. Após um ano de estudos, os primeiros resultados mostraram que o gosto salgado foi prejudicado desde o estágio inicial e com a evolução da doença o paladar para doce e amargo também foi afetado. “A primeira coisa que vimos é que a doença pode levar à desnutrição”, disse o médico Júlio César Morigutti, que participou do estudo. Segundo os pesquisadores, sem paladar os idosos perdem a vontade de comer e outros sentidos devem ser priorizados pelas famílias dos pacientes para incentivar a ingestão de alimentos. “Uma dieta mais colorida, por exemplo”, explicou.

Envenenamento e hipertensão

A perda de sensibilidade do paladar pode causar também outros problemas aos idosos com a doença, segundo a nutricionista Patrícia Contri, responsável pela pesquisa. “O não reconhecimento do gosto amargo pode aumentar o risco de envenenamento, por exemplo, porque o idoso com demência podem consumir alimentos estragados e não perceber”.

Além disso, a deficiência pode agravar outras doenças como a hipertensão. “Eles têm dificuldade de discernir o salgado e isso pode fazer com que eles possam colocar mais sal na alimentação e isso pode descompensar a hipertensão arterial ou a insuficiência cardíaca, é um grande problema”, disse Morigutti.
Os pesquisadores não identificaram ainda como a perda de paladar ocorre no cérebro dos pacientes com Alzheimer. As informações coletadas serão usadas pelos pesquisadores para outros levantamentos que também podem ajudar os pacientes com a doença.

Fonte: Portal G1